A consulta foi para a tela. O cuidado, nem sempre

Pedro Santoro

Em algum momento de 2020, a pergunta que o setor de saúde fez a si mesmo foi: conseguimos colocar a consulta numa tela? A resposta foi sim. E isso pareceu suficiente. A telemedicina foi celebrada como inovação porque era nova, porque resolveu uma urgência real e porque os números cresceram de forma impressionante. Só que novo e inovador não são a mesma coisa. E a urgência, como toda urgência, passou. O que ficou merece uma leitura mais honesta do que a que temos feito.

Os números são reais e não devem ser minimizados. As teleconsultas cresceram 350% durante a pandemia. Em 2023, mais de 30 milhões de atendimentos remotos foram registrados no Brasil, crescimento superior a 170% em relação ao acumulado dos anos anteriores. Entre 2023 e 2024, os agendamentos por telemedicina cresceram mais 53%. São dados que descrevem um fenômeno de escala. Mas descrevem também, se olhados com atenção, uma adaptação de emergência que ganhou musculatura, e não necessariamente um redesenho do cuidado. A diferença entre essas duas coisas é o centro do problema.

A euforia tem um custo específico: ela dispensa evidência. Quando a telemedicina cresceu na pandemia, cresceu porque precisava crescer, não porque o ecossistema estava pronto para recebê-la. O Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros de 2024 revela que o índice médio de maturidade digital no setor é de apenas 46,19%. Apenas 14% das instituições avaliadas possuem o que se pode chamar de governança digital real, com comitês estruturados e profissionais efetivamente engajados na jornada digital. A telemedicina, portanto, cresceu em grande parte sobre estruturas que ainda não estavam prontas para sustentá-la. Adoção em massa não é o mesmo que transformação. E confundir as duas é um erro que o setor ainda está pagando.

Há outro desconforto que precisa ser nomeado: a inovação que chegou desigual. Setenta por cento das plataformas privadas de telemedicina no Brasil estão concentradas no Sudeste. Norte e Nordeste dependem majoritariamente de iniciativas públicas para ter acesso ao atendimento remoto. A pandemia acelerou o acesso à telemedicina para quem já tinha condições de se conectar, e aprofundou a distância para quem não tinha. Uma inovação que melhora o cuidado de uns e amplia a exclusão de outros não é, no sentido pleno da palavra, uma inovação no cuidado. É uma melhoria localizada com externalidade negativa invisível. E invisível, aqui, não é metáfora: esse dado raramente aparece nas apresentações de resultado das plataformas.

Dito isso, o que ficou de estrutural é real e não pode ser ignorado. Três elementos sobreviveram ao encantamento e não voltam atrás. O primeiro é a regulação permanente: a Lei 14.510, sancionada em dezembro de 2022, reconhece definitivamente o atendimento remoto como parte legítima do sistema de saúde brasileiro. Isso não é detalhe burocrático. É o reconhecimento de que a telemedicina saiu do estado de exceção e entrou no estado de normalidade regulatória. O segundo é a saúde mental como caso de uso consolidado: 82% dos agendamentos de teleconsulta em 2024 vieram de psicologia, psiquiatria e saúde mental, especialidades onde o remoto muitas vezes não é substituto do presencial, mas a única forma real de acesso. O terceiro é a integração ao ecossistema: a telemedicina que resiste e que cresce é a que conecta prontuário, exames, laudos e acompanhamento em um fluxo único, e não a consulta avulsa dentro de uma plataforma isolada. Esses três elementos formam uma base. O que se constrói sobre ela é outra conversa.

Mas há uma pergunta que a euforia não fez, e que a maturidade precisa fazer: quem garante a qualidade do que acontece dentro da teleconsulta? Protocolos clínicos adaptados ao atendimento remoto, critérios de elegibilidade por condição e por complexidade, rastreabilidade das decisões, supervisão de equipes multidisciplinares à distância: isso é governança clínica. Sem ela, a telemedicina opera como um balcão de prescrição digitalizado. Com ela, torna-se um ponto real de coordenação do cuidado. A inovação clínica verdadeira não está na interface. Está no protocolo que a interface serve. E esse protocolo, em boa parte das plataformas que cresceram na pandemia, simplesmente não existia. Cresceu o volume. A estrutura de cuidado que deveria sustentar esse volume ficou para depois. Em muitos casos, esse depois ainda não chegou.

Quem acompanhou o que aconteceu com o ensino a distância depois da pandemia reconhece o padrão com facilidade. O EAD viveu exatamente o mesmo arco: crescimento explosivo na emergência, queda abrupta no encantamento, consolidação lenta do que era estrutural de verdade. O debate que o setor de educação travou por anos, se o remoto substitui o presencial, revelou-se a pergunta errada. A pergunta certa era outra: em que situações o remoto serve melhor ao aprendizado do que o presencial? Quando a sequência certa é aula online, depois encontro presencial, depois prática supervisionada? Quais jornadas de aprendizado inteiras poderiam ser redesenhadas, e não apenas transferidas de canal? As instituições de ensino que saíram fortalecidas da pandemia foram as que fizeram essas perguntas. As que apenas colocaram a aula numa tela voltaram para o presencial sem aprender nada. A telemedicina está diante do mesmo dilema. E o setor de saúde tem a vantagem de já ter visto esse filme em outro mercado.

Inovar no cuidado é diferente de digitalizar o atendimento. A maioria das experiências de telemedicina que foram implementadas na pandemia digitalizou um modelo de consulta que já existia, sem reorganizar a lógica do cuidado que esse modelo carrega. A consulta de 5 minutos, fragmentada, centrada no episódio e desconectada do histórico do paciente, ganhou uma tela. Mas continuou sendo a mesma consulta de 5 minutos. Inovar no cuidado exigiria perguntar: quando o remoto serve melhor ao paciente do que o presencial? Quais fluxos assistenciais inteiros podem ser redesenhados a partir da possibilidade do atendimento remoto? Como o monitoramento contínuo muda a relação entre consulta e cuidado? Essas perguntas não foram feitas em escala. E é por isso que tantas plataformas cresceram sem transformar.

O que ainda é promessa precisa ser nomeado com a mesma honestidade. Os modelos de remuneração para telemedicina não estão resolvidos de forma sistêmica. A interoperabilidade entre plataformas e sistemas de saúde permanece frágil. Apenas 11% das instituições brasileiras possuem estratégia estruturada de capacitação digital para seus profissionais. A resistência cultural de parte da força de trabalho em saúde não é irracional: é, muitas vezes, a resposta legítima à ausência de suporte, de protocolo e de sentido clínico no uso das ferramentas. Reconhecer isso não é pessimismo. É o pré-requisito para construir algo que dure.

A telemedicina sobreviveu à euforia. Mas sobreviver não é o mesmo que amadurecer. O que o setor tem diante de si não é a tarefa de escalar o que foi criado na pandemia. É a tarefa de redesenhá-lo com intencionalidade clínica, com governança e com honestidade sobre o que o remoto resolve e o que ele não resolve. A inovação real em telemedicina ainda está, em grande parte, por acontecer. E esse é o dado mais importante de todos: não porque seja motivo de desânimo, mas porque é o espaço mais fértil e mais honesto para quem quer, de verdade, transformar o cuidado. A pergunta já não é se conseguimos colocar a consulta numa tela. A pergunta é o que fazemos com tudo que aprendemos desde que conseguimos.

Referências
  • FENASAÚDE. Dados de atendimentos remotos 2023. Federação Nacional de Saúde Suplementar, 2024. Disponível em:
https://maislaudo.com.br/blog/telemedicina-em-2026/
  • DOCTORALIA. Panorama da Saúde Digital 2025: a revolução da IA na saúde. Medicina S/A, março de 2025. Disponível em: https://medicinasa.com.br/ia-edi29/

  • FOLKS. Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros 2024. Saúde Business, dezembro de 2024. Disponível em:
https://www.saudebusiness.com/ti-e-inovao/saude-digital-tecnologia-tendencias-2025
/
  • BRASIL. Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022. Autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional. Brasília: Presidência da República, 2022.
  • EDITORIALGE. Telemedicina no Brasil: Impacto e Futuro da Saúde Digital. Guia 2024, março de 2025. Disponível em:
https://pt.editorialge.com/telemedicina-no-brasil/
  • OLIVEIRA et al. Telemedicina e a transformação do atendimento à saúde no
pós-pandemia: o futuro da medicina à distância. Revista FT, 2024. Disponível em: https://revistaft.com.br/telemedicina-e-a-transformacao-do-atendimento-a-saude-no- pos-pandemia-o-futuro-da-medicina-a-distancia/
  • INTECHOPEN. Telemedicine beyond the Pandemic: Innovations, Challenges, and the Future of Digital Healthcare. IntechOpen, maio de 2025. Disponível em: https://www.intechopen.com/chapters/1222152
  • MERCADO HOJE. Mercado de saúde digital no Brasil: números, tendências e oportunidades para 2026. Mercado Hoje, maio de 2026. Disponível em: https://mercadohoje.uai.com.br/2026/05/09/mercado-de-saude-digital-no-brasil-nume ros-tendencias-e-oportunidades-para-2026/


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A consulta foi para a tela. O cuidado, nem sempre

Pedro Santoro

Em algum momento de 2020, a pergunta que o setor de saúde fez a si mesmo foi: conseguimos colocar a consulta numa tela? A resposta foi sim. E isso pareceu suficiente. A telemedicina foi celebrada como inovação porque era nova, porque resolveu uma urgência real e porque os números cresceram de forma impressionante. Só que novo e inovador não são a mesma coisa. E a urgência, como toda urgência, passou. O que ficou merece uma leitura mais honesta do que a que temos feito.

Os números são reais e não devem ser minimizados. As teleconsultas cresceram 350% durante a pandemia. Em 2023, mais de 30 milhões de atendimentos remotos foram registrados no Brasil, crescimento superior a 170% em relação ao acumulado dos anos anteriores. Entre 2023 e 2024, os agendamentos por telemedicina cresceram mais 53%. São dados que descrevem um fenômeno de escala. Mas descrevem também, se olhados com atenção, uma adaptação de emergência que ganhou musculatura, e não necessariamente um redesenho do cuidado. A diferença entre essas duas coisas é o centro do problema.

A euforia tem um custo específico: ela dispensa evidência. Quando a telemedicina cresceu na pandemia, cresceu porque precisava crescer, não porque o ecossistema estava pronto para recebê-la. O Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros de 2024 revela que o índice médio de maturidade digital no setor é de apenas 46,19%. Apenas 14% das instituições avaliadas possuem o que se pode chamar de governança digital real, com comitês estruturados e profissionais efetivamente engajados na jornada digital. A telemedicina, portanto, cresceu em grande parte sobre estruturas que ainda não estavam prontas para sustentá-la. Adoção em massa não é o mesmo que transformação. E confundir as duas é um erro que o setor ainda está pagando.

Há outro desconforto que precisa ser nomeado: a inovação que chegou desigual. Setenta por cento das plataformas privadas de telemedicina no Brasil estão concentradas no Sudeste. Norte e Nordeste dependem majoritariamente de iniciativas públicas para ter acesso ao atendimento remoto. A pandemia acelerou o acesso à telemedicina para quem já tinha condições de se conectar, e aprofundou a distância para quem não tinha. Uma inovação que melhora o cuidado de uns e amplia a exclusão de outros não é, no sentido pleno da palavra, uma inovação no cuidado. É uma melhoria localizada com externalidade negativa invisível. E invisível, aqui, não é metáfora: esse dado raramente aparece nas apresentações de resultado das plataformas.

Dito isso, o que ficou de estrutural é real e não pode ser ignorado. Três elementos sobreviveram ao encantamento e não voltam atrás. O primeiro é a regulação permanente: a Lei 14.510, sancionada em dezembro de 2022, reconhece definitivamente o atendimento remoto como parte legítima do sistema de saúde brasileiro. Isso não é detalhe burocrático. É o reconhecimento de que a telemedicina saiu do estado de exceção e entrou no estado de normalidade regulatória. O segundo é a saúde mental como caso de uso consolidado: 82% dos agendamentos de teleconsulta em 2024 vieram de psicologia, psiquiatria e saúde mental, especialidades onde o remoto muitas vezes não é substituto do presencial, mas a única forma real de acesso. O terceiro é a integração ao ecossistema: a telemedicina que resiste e que cresce é a que conecta prontuário, exames, laudos e acompanhamento em um fluxo único, e não a consulta avulsa dentro de uma plataforma isolada. Esses três elementos formam uma base. O que se constrói sobre ela é outra conversa.

Mas há uma pergunta que a euforia não fez, e que a maturidade precisa fazer: quem garante a qualidade do que acontece dentro da teleconsulta? Protocolos clínicos adaptados ao atendimento remoto, critérios de elegibilidade por condição e por complexidade, rastreabilidade das decisões, supervisão de equipes multidisciplinares à distância: isso é governança clínica. Sem ela, a telemedicina opera como um balcão de prescrição digitalizado. Com ela, torna-se um ponto real de coordenação do cuidado. A inovação clínica verdadeira não está na interface. Está no protocolo que a interface serve. E esse protocolo, em boa parte das plataformas que cresceram na pandemia, simplesmente não existia. Cresceu o volume. A estrutura de cuidado que deveria sustentar esse volume ficou para depois. Em muitos casos, esse depois ainda não chegou.

Quem acompanhou o que aconteceu com o ensino a distância depois da pandemia reconhece o padrão com facilidade. O EAD viveu exatamente o mesmo arco: crescimento explosivo na emergência, queda abrupta no encantamento, consolidação lenta do que era estrutural de verdade. O debate que o setor de educação travou por anos, se o remoto substitui o presencial, revelou-se a pergunta errada. A pergunta certa era outra: em que situações o remoto serve melhor ao aprendizado do que o presencial? Quando a sequência certa é aula online, depois encontro presencial, depois prática supervisionada? Quais jornadas de aprendizado inteiras poderiam ser redesenhadas, e não apenas transferidas de canal? As instituições de ensino que saíram fortalecidas da pandemia foram as que fizeram essas perguntas. As que apenas colocaram a aula numa tela voltaram para o presencial sem aprender nada. A telemedicina está diante do mesmo dilema. E o setor de saúde tem a vantagem de já ter visto esse filme em outro mercado.

Inovar no cuidado é diferente de digitalizar o atendimento. A maioria das experiências de telemedicina que foram implementadas na pandemia digitalizou um modelo de consulta que já existia, sem reorganizar a lógica do cuidado que esse modelo carrega. A consulta de 5 minutos, fragmentada, centrada no episódio e desconectada do histórico do paciente, ganhou uma tela. Mas continuou sendo a mesma consulta de 5 minutos. Inovar no cuidado exigiria perguntar: quando o remoto serve melhor ao paciente do que o presencial? Quais fluxos assistenciais inteiros podem ser redesenhados a partir da possibilidade do atendimento remoto? Como o monitoramento contínuo muda a relação entre consulta e cuidado? Essas perguntas não foram feitas em escala. E é por isso que tantas plataformas cresceram sem transformar.

O que ainda é promessa precisa ser nomeado com a mesma honestidade. Os modelos de remuneração para telemedicina não estão resolvidos de forma sistêmica. A interoperabilidade entre plataformas e sistemas de saúde permanece frágil. Apenas 11% das instituições brasileiras possuem estratégia estruturada de capacitação digital para seus profissionais. A resistência cultural de parte da força de trabalho em saúde não é irracional: é, muitas vezes, a resposta legítima à ausência de suporte, de protocolo e de sentido clínico no uso das ferramentas. Reconhecer isso não é pessimismo. É o pré-requisito para construir algo que dure.

A telemedicina sobreviveu à euforia. Mas sobreviver não é o mesmo que amadurecer. O que o setor tem diante de si não é a tarefa de escalar o que foi criado na pandemia. É a tarefa de redesenhá-lo com intencionalidade clínica, com governança e com honestidade sobre o que o remoto resolve e o que ele não resolve. A inovação real em telemedicina ainda está, em grande parte, por acontecer. E esse é o dado mais importante de todos: não porque seja motivo de desânimo, mas porque é o espaço mais fértil e mais honesto para quem quer, de verdade, transformar o cuidado. A pergunta já não é se conseguimos colocar a consulta numa tela. A pergunta é o que fazemos com tudo que aprendemos desde que conseguimos.

Referências
  • FENASAÚDE. Dados de atendimentos remotos 2023. Federação Nacional de Saúde Suplementar, 2024. Disponível em:
https://maislaudo.com.br/blog/telemedicina-em-2026/
  • DOCTORALIA. Panorama da Saúde Digital 2025: a revolução da IA na saúde. Medicina S/A, março de 2025. Disponível em: https://medicinasa.com.br/ia-edi29/

  • FOLKS. Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros 2024. Saúde Business, dezembro de 2024. Disponível em:
https://www.saudebusiness.com/ti-e-inovao/saude-digital-tecnologia-tendencias-2025
/
  • BRASIL. Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022. Autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional. Brasília: Presidência da República, 2022.
  • EDITORIALGE. Telemedicina no Brasil: Impacto e Futuro da Saúde Digital. Guia 2024, março de 2025. Disponível em:
https://pt.editorialge.com/telemedicina-no-brasil/
  • OLIVEIRA et al. Telemedicina e a transformação do atendimento à saúde no
pós-pandemia: o futuro da medicina à distância. Revista FT, 2024. Disponível em: https://revistaft.com.br/telemedicina-e-a-transformacao-do-atendimento-a-saude-no- pos-pandemia-o-futuro-da-medicina-a-distancia/
  • INTECHOPEN. Telemedicine beyond the Pandemic: Innovations, Challenges, and the Future of Digital Healthcare. IntechOpen, maio de 2025. Disponível em: https://www.intechopen.com/chapters/1222152
  • MERCADO HOJE. Mercado de saúde digital no Brasil: números, tendências e oportunidades para 2026. Mercado Hoje, maio de 2026. Disponível em: https://mercadohoje.uai.com.br/2026/05/09/mercado-de-saude-digital-no-brasil-nume ros-tendencias-e-oportunidades-para-2026/


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A consulta foi para a tela. O cuidado, nem sempre

Pedro Santoro

Em algum momento de 2020, a pergunta que o setor de saúde fez a si mesmo foi: conseguimos colocar a consulta numa tela? A resposta foi sim. E isso pareceu suficiente. A telemedicina foi celebrada como inovação porque era nova, porque resolveu uma urgência real e porque os números cresceram de forma impressionante. Só que novo e inovador não são a mesma coisa. E a urgência, como toda urgência, passou. O que ficou merece uma leitura mais honesta do que a que temos feito.

Os números são reais e não devem ser minimizados. As teleconsultas cresceram 350% durante a pandemia. Em 2023, mais de 30 milhões de atendimentos remotos foram registrados no Brasil, crescimento superior a 170% em relação ao acumulado dos anos anteriores. Entre 2023 e 2024, os agendamentos por telemedicina cresceram mais 53%. São dados que descrevem um fenômeno de escala. Mas descrevem também, se olhados com atenção, uma adaptação de emergência que ganhou musculatura, e não necessariamente um redesenho do cuidado. A diferença entre essas duas coisas é o centro do problema.

A euforia tem um custo específico: ela dispensa evidência. Quando a telemedicina cresceu na pandemia, cresceu porque precisava crescer, não porque o ecossistema estava pronto para recebê-la. O Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros de 2024 revela que o índice médio de maturidade digital no setor é de apenas 46,19%. Apenas 14% das instituições avaliadas possuem o que se pode chamar de governança digital real, com comitês estruturados e profissionais efetivamente engajados na jornada digital. A telemedicina, portanto, cresceu em grande parte sobre estruturas que ainda não estavam prontas para sustentá-la. Adoção em massa não é o mesmo que transformação. E confundir as duas é um erro que o setor ainda está pagando.

Há outro desconforto que precisa ser nomeado: a inovação que chegou desigual. Setenta por cento das plataformas privadas de telemedicina no Brasil estão concentradas no Sudeste. Norte e Nordeste dependem majoritariamente de iniciativas públicas para ter acesso ao atendimento remoto. A pandemia acelerou o acesso à telemedicina para quem já tinha condições de se conectar, e aprofundou a distância para quem não tinha. Uma inovação que melhora o cuidado de uns e amplia a exclusão de outros não é, no sentido pleno da palavra, uma inovação no cuidado. É uma melhoria localizada com externalidade negativa invisível. E invisível, aqui, não é metáfora: esse dado raramente aparece nas apresentações de resultado das plataformas.

Dito isso, o que ficou de estrutural é real e não pode ser ignorado. Três elementos sobreviveram ao encantamento e não voltam atrás. O primeiro é a regulação permanente: a Lei 14.510, sancionada em dezembro de 2022, reconhece definitivamente o atendimento remoto como parte legítima do sistema de saúde brasileiro. Isso não é detalhe burocrático. É o reconhecimento de que a telemedicina saiu do estado de exceção e entrou no estado de normalidade regulatória. O segundo é a saúde mental como caso de uso consolidado: 82% dos agendamentos de teleconsulta em 2024 vieram de psicologia, psiquiatria e saúde mental, especialidades onde o remoto muitas vezes não é substituto do presencial, mas a única forma real de acesso. O terceiro é a integração ao ecossistema: a telemedicina que resiste e que cresce é a que conecta prontuário, exames, laudos e acompanhamento em um fluxo único, e não a consulta avulsa dentro de uma plataforma isolada. Esses três elementos formam uma base. O que se constrói sobre ela é outra conversa.

Mas há uma pergunta que a euforia não fez, e que a maturidade precisa fazer: quem garante a qualidade do que acontece dentro da teleconsulta? Protocolos clínicos adaptados ao atendimento remoto, critérios de elegibilidade por condição e por complexidade, rastreabilidade das decisões, supervisão de equipes multidisciplinares à distância: isso é governança clínica. Sem ela, a telemedicina opera como um balcão de prescrição digitalizado. Com ela, torna-se um ponto real de coordenação do cuidado. A inovação clínica verdadeira não está na interface. Está no protocolo que a interface serve. E esse protocolo, em boa parte das plataformas que cresceram na pandemia, simplesmente não existia. Cresceu o volume. A estrutura de cuidado que deveria sustentar esse volume ficou para depois. Em muitos casos, esse depois ainda não chegou.

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O que ainda é promessa precisa ser nomeado com a mesma honestidade. Os modelos de remuneração para telemedicina não estão resolvidos de forma sistêmica. A interoperabilidade entre plataformas e sistemas de saúde permanece frágil. Apenas 11% das instituições brasileiras possuem estratégia estruturada de capacitação digital para seus profissionais. A resistência cultural de parte da força de trabalho em saúde não é irracional: é, muitas vezes, a resposta legítima à ausência de suporte, de protocolo e de sentido clínico no uso das ferramentas. Reconhecer isso não é pessimismo. É o pré-requisito para construir algo que dure.

A telemedicina sobreviveu à euforia. Mas sobreviver não é o mesmo que amadurecer. O que o setor tem diante de si não é a tarefa de escalar o que foi criado na pandemia. É a tarefa de redesenhá-lo com intencionalidade clínica, com governança e com honestidade sobre o que o remoto resolve e o que ele não resolve. A inovação real em telemedicina ainda está, em grande parte, por acontecer. E esse é o dado mais importante de todos: não porque seja motivo de desânimo, mas porque é o espaço mais fértil e mais honesto para quem quer, de verdade, transformar o cuidado. A pergunta já não é se conseguimos colocar a consulta numa tela. A pergunta é o que fazemos com tudo que aprendemos desde que conseguimos.

Referências
  • FENASAÚDE. Dados de atendimentos remotos 2023. Federação Nacional de Saúde Suplementar, 2024. Disponível em:
https://maislaudo.com.br/blog/telemedicina-em-2026/
  • DOCTORALIA. Panorama da Saúde Digital 2025: a revolução da IA na saúde. Medicina S/A, março de 2025. Disponível em: https://medicinasa.com.br/ia-edi29/

  • FOLKS. Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros 2024. Saúde Business, dezembro de 2024. Disponível em:
https://www.saudebusiness.com/ti-e-inovao/saude-digital-tecnologia-tendencias-2025
/
  • BRASIL. Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022. Autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional. Brasília: Presidência da República, 2022.
  • EDITORIALGE. Telemedicina no Brasil: Impacto e Futuro da Saúde Digital. Guia 2024, março de 2025. Disponível em:
https://pt.editorialge.com/telemedicina-no-brasil/
  • OLIVEIRA et al. Telemedicina e a transformação do atendimento à saúde no
pós-pandemia: o futuro da medicina à distância. Revista FT, 2024. Disponível em: https://revistaft.com.br/telemedicina-e-a-transformacao-do-atendimento-a-saude-no- pos-pandemia-o-futuro-da-medicina-a-distancia/
  • INTECHOPEN. Telemedicine beyond the Pandemic: Innovations, Challenges, and the Future of Digital Healthcare. IntechOpen, maio de 2025. Disponível em: https://www.intechopen.com/chapters/1222152
  • MERCADO HOJE. Mercado de saúde digital no Brasil: números, tendências e oportunidades para 2026. Mercado Hoje, maio de 2026. Disponível em: https://mercadohoje.uai.com.br/2026/05/09/mercado-de-saude-digital-no-brasil-nume ros-tendencias-e-oportunidades-para-2026/


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