De volta para o futuro

Se você tem mais de 30 anos, provavelmente lembra de “De Volta para o Futuro”. Aquele filme em que o futuro parecia quase uma ficção divertida, cheia de previsões improváveis.

Mas, no caso do envelhecimento da população, o futuro nunca teve nada de improvável.

Eu entrei na faculdade de medicina em 1994. Naquela época, já se falava, e muito, sobre o envelhecimento da população. Não era uma hipótese distante. Era um caminho claro, sustentado por dados consistentes. A gente sabia.

Sabia que viveríamos mais. Sabia que teríamos muito mais idosos no país e no mundo. Sabia que isso mudaria tudo: o sistema de saúde, a economia, as relações de trabalho, a própria organização da sociedade.

Naqueles anos, o filme De Volta para o Futuro ainda era uma referência de como imaginávamos o amanhã. Hoje, olhando em volta, a sensação é outra.

O futuro chegou. Mas, em muitos aspectos, parece que voltamos para o passado, como se tivéssemos assistido a tudo isso acontecer sem realmente nos preparar.

Se sabíamos o que estava por vir, por que chegamos até aqui tão pouco preparados?

A medicina fez a sua parte. Avançamos, ampliamos diagnósticos, desenvolvemos tratamentos, controlamos doenças que antes limitavam a vida. Hoje, viver mais deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Mas viver mais não é, necessariamente, viver melhor. E, principalmente, não é viver melhor para todos.

O acesso ao cuidado ainda é profundamente desigual. O envelhecimento bem-sucedido, que tanto estudamos e defendemos, ainda é privilégio de poucos. Para muitos brasileiros, envelhecer continua sendo sinônimo de perda de autonomia, de dificuldade de acesso, de fragilidade social.

E mesmo dentro do sistema de saúde, ainda tratamos o envelhecimento como um tema à parte. Como se fosse responsabilidade de alguns poucos especialistas. Não é.

A realidade é mais simples e mais desafiadora. Todos nós lidamos, e vamos lidar cada vez mais com pessoas idosas. Em qualquer consultório, em qualquer serviço, em qualquer nível de atenção.

Ainda assim, a formação dos nossos profissionais de saúde pouco acompanha essa mudança. Seguimos treinando médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e tantos outros profissionais sem os preparar, de forma consistente, para o cuidado do idoso.

E vale lembrar que não teremos geriatras e gerontólogos em número suficiente para dar conta dessa demanda.

Assim, talvez esteja na hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir quantos especialistas precisamos formar, deveríamos nos perguntar porque ainda não incorporamos o envelhecimento como competência básica para todos os profissionais de saúde. Se o futuro já chegou, não faz mais sentido tratar o cuidado do idoso como exceção. Ele precisa ser a regra. Mas talvez a maior falha tenha sido outra.

Ao longo dos anos, tratamos o envelhecimento como um tema da saúde. Como se fosse um assunto restrito a consultórios, hospitais e políticas assistenciais. Não é.

Envelhecer é uma experiência que atravessa toda a sociedade. Está nas cidades que não foram preparadas, nas calçadas que oferecem risco, nos transportes que não acolhem, nos ambientes de trabalho que excluem, nos serviços que não consideram as limitações e, principalmente, nas potencialidades de quem envelhece.

Está nas empresas que ainda não entenderam que a população idosa já é uma das maiores forças de consumo do país; nas relações de trabalho que não se adaptaram à geração que cuida, ao mesmo tempo, de filhos e de pais.

Está no silêncio. Falamos pouco sobre envelhecimento. Planejamos pouco. Discutimos menos ainda. Como se não fosse acontecer. Mas, já aconteceu.

E, talvez por isso, seguimos tratando o aumento da longevidade como uma conquista isolada, quando, na verdade, ele exige uma reorganização profunda de praticamente tudo.

Se viver mais é uma realidade, viver melhor precisa deixar de ser uma exceção. E isso não será resolvido apenas dentro do sistema de saúde. Assim como precisamos “geriatrizar” o cuidado, talvez seja hora de ampliar esse conceito.

Precisamos, de alguma forma, “geriatrizar” a sociedade.

Do atendimento no banco ao embarque em um aeroporto. Do desenvolvimento de tecnologias à forma como desenhamos nossas cidades. Das políticas públicas às relações dentro de casa.

Envelhecer não pode ser um problema a ser gerido. Precisa ser uma realidade a ser incorporada.

E talvez a boa notícia seja justamente essa. Ainda dá tempo! Sempre dá tempo.

Diferente de outros desafios que surgem de forma inesperada, o envelhecimento da população continua sendo um processo previsível. Nós sabemos o que vem pela frente. Sabemos onde falhamos. E, principalmente, sabemos por onde começar.

Temos mais informação, mais tecnologia e mais conhecimento acumulado do que nunca.

A tecnologia, aliás, tem desempenhado um papel cada vez mais relevante nesse cenário. Avanços em monitoramento, diagnósticos, terapias e ferramentas digitais ampliam possibilidades de cuidado, autonomia e qualidade de vida. E, ao contrário do que ainda se imagina, muitos idosos acompanham essas mudanças e as incorporam no seu dia a dia com naturalidade, utilizam aplicativos, se comunicam, consomem informação e participam ativamente desse novo ambiente digital.

E vale ir além: a própria inovação já não é mais um território exclusivamente jovem. Uma parcela crescente das empresas de tecnologia vem sendo criada e liderada por pessoas com mais de 60 anos, um movimento que ainda recebe pouca atenção, mas que diz muito sobre o que está por vir.

Há exemplos no mundo de cidades mais adaptadas, de modelos de cuidado mais integrados, de iniciativas que valorizam a autonomia e a participação ativa das pessoas idosas.

Temos, inclusive, uma nova geração que começa a envelhecer com outras expectativas, mais informada, mais ativa e menos disposta a aceitar os padrões antigos.

Talvez o que falte não seja capacidade, mas decisão.

Decisão de incorporar o envelhecimento como parte central do planejamento das políticas públicas às estratégias das empresas, da formação dos profissionais às escolhas individuais.

Porque, no fim, não estamos falando de um grupo específico.

Estamos falando de todos nós.

Se antes olhávamos para o envelhecimento como um futuro distante, hoje ele já faz parte do presente. E, justamente por isso, ainda pode ser transformado.

Talvez essa seja, no fundo, uma das conversas mais importantes do nosso tempo.

Por acompanhar esse tema há décadas, vi previsões se confirmarem, vi avanços importantes acontecerem e também vi oportunidades sendo adiadas.

Mas continuo acreditando que ainda estamos a tempo.

Se, por um lado, não podemos voltar ao passado para fazer diferente, como no filme que marcou uma geração, por outro ainda podemos decidir o que fazer com o futuro que já começou.

Vamos juntos pensar em como transformar a longevidade em mais anos de vida com qualidade e sentido.

Que esta coluna seja um ponto de encontro de pessoas envolvidas nesse assunto e que, juntos, possamos transformar o presente e, assim, o futuro.


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Se você tem mais de 30 anos, provavelmente lembra de “De Volta para o Futuro”. Aquele filme em que o futuro parecia quase uma ficção divertida, cheia de previsões improváveis.

Mas, no caso do envelhecimento da população, o futuro nunca teve nada de improvável.

Eu entrei na faculdade de medicina em 1994. Naquela época, já se falava, e muito, sobre o envelhecimento da população. Não era uma hipótese distante. Era um caminho claro, sustentado por dados consistentes. A gente sabia.

Sabia que viveríamos mais. Sabia que teríamos muito mais idosos no país e no mundo. Sabia que isso mudaria tudo: o sistema de saúde, a economia, as relações de trabalho, a própria organização da sociedade.

Naqueles anos, o filme De Volta para o Futuro ainda era uma referência de como imaginávamos o amanhã. Hoje, olhando em volta, a sensação é outra.

O futuro chegou. Mas, em muitos aspectos, parece que voltamos para o passado, como se tivéssemos assistido a tudo isso acontecer sem realmente nos preparar.

Se sabíamos o que estava por vir, por que chegamos até aqui tão pouco preparados?

A medicina fez a sua parte. Avançamos, ampliamos diagnósticos, desenvolvemos tratamentos, controlamos doenças que antes limitavam a vida. Hoje, viver mais deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Mas viver mais não é, necessariamente, viver melhor. E, principalmente, não é viver melhor para todos.

O acesso ao cuidado ainda é profundamente desigual. O envelhecimento bem-sucedido, que tanto estudamos e defendemos, ainda é privilégio de poucos. Para muitos brasileiros, envelhecer continua sendo sinônimo de perda de autonomia, de dificuldade de acesso, de fragilidade social.

E mesmo dentro do sistema de saúde, ainda tratamos o envelhecimento como um tema à parte. Como se fosse responsabilidade de alguns poucos especialistas. Não é.

A realidade é mais simples e mais desafiadora. Todos nós lidamos, e vamos lidar cada vez mais com pessoas idosas. Em qualquer consultório, em qualquer serviço, em qualquer nível de atenção.

Ainda assim, a formação dos nossos profissionais de saúde pouco acompanha essa mudança. Seguimos treinando médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e tantos outros profissionais sem os preparar, de forma consistente, para o cuidado do idoso.

E vale lembrar que não teremos geriatras e gerontólogos em número suficiente para dar conta dessa demanda.

Assim, talvez esteja na hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir quantos especialistas precisamos formar, deveríamos nos perguntar porque ainda não incorporamos o envelhecimento como competência básica para todos os profissionais de saúde. Se o futuro já chegou, não faz mais sentido tratar o cuidado do idoso como exceção. Ele precisa ser a regra. Mas talvez a maior falha tenha sido outra.

Ao longo dos anos, tratamos o envelhecimento como um tema da saúde. Como se fosse um assunto restrito a consultórios, hospitais e políticas assistenciais. Não é.

Envelhecer é uma experiência que atravessa toda a sociedade. Está nas cidades que não foram preparadas, nas calçadas que oferecem risco, nos transportes que não acolhem, nos ambientes de trabalho que excluem, nos serviços que não consideram as limitações e, principalmente, nas potencialidades de quem envelhece.

Está nas empresas que ainda não entenderam que a população idosa já é uma das maiores forças de consumo do país; nas relações de trabalho que não se adaptaram à geração que cuida, ao mesmo tempo, de filhos e de pais.

Está no silêncio. Falamos pouco sobre envelhecimento. Planejamos pouco. Discutimos menos ainda. Como se não fosse acontecer. Mas, já aconteceu.

E, talvez por isso, seguimos tratando o aumento da longevidade como uma conquista isolada, quando, na verdade, ele exige uma reorganização profunda de praticamente tudo.

Se viver mais é uma realidade, viver melhor precisa deixar de ser uma exceção. E isso não será resolvido apenas dentro do sistema de saúde. Assim como precisamos “geriatrizar” o cuidado, talvez seja hora de ampliar esse conceito.

Precisamos, de alguma forma, “geriatrizar” a sociedade.

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Envelhecer não pode ser um problema a ser gerido. Precisa ser uma realidade a ser incorporada.

E talvez a boa notícia seja justamente essa. Ainda dá tempo! Sempre dá tempo.

Diferente de outros desafios que surgem de forma inesperada, o envelhecimento da população continua sendo um processo previsível. Nós sabemos o que vem pela frente. Sabemos onde falhamos. E, principalmente, sabemos por onde começar.

Temos mais informação, mais tecnologia e mais conhecimento acumulado do que nunca.

A tecnologia, aliás, tem desempenhado um papel cada vez mais relevante nesse cenário. Avanços em monitoramento, diagnósticos, terapias e ferramentas digitais ampliam possibilidades de cuidado, autonomia e qualidade de vida. E, ao contrário do que ainda se imagina, muitos idosos acompanham essas mudanças e as incorporam no seu dia a dia com naturalidade, utilizam aplicativos, se comunicam, consomem informação e participam ativamente desse novo ambiente digital.

E vale ir além: a própria inovação já não é mais um território exclusivamente jovem. Uma parcela crescente das empresas de tecnologia vem sendo criada e liderada por pessoas com mais de 60 anos, um movimento que ainda recebe pouca atenção, mas que diz muito sobre o que está por vir.

Há exemplos no mundo de cidades mais adaptadas, de modelos de cuidado mais integrados, de iniciativas que valorizam a autonomia e a participação ativa das pessoas idosas.

Temos, inclusive, uma nova geração que começa a envelhecer com outras expectativas, mais informada, mais ativa e menos disposta a aceitar os padrões antigos.

Talvez o que falte não seja capacidade, mas decisão.

Decisão de incorporar o envelhecimento como parte central do planejamento das políticas públicas às estratégias das empresas, da formação dos profissionais às escolhas individuais.

Porque, no fim, não estamos falando de um grupo específico.

Estamos falando de todos nós.

Se antes olhávamos para o envelhecimento como um futuro distante, hoje ele já faz parte do presente. E, justamente por isso, ainda pode ser transformado.

Talvez essa seja, no fundo, uma das conversas mais importantes do nosso tempo.

Por acompanhar esse tema há décadas, vi previsões se confirmarem, vi avanços importantes acontecerem e também vi oportunidades sendo adiadas.

Mas continuo acreditando que ainda estamos a tempo.

Se, por um lado, não podemos voltar ao passado para fazer diferente, como no filme que marcou uma geração, por outro ainda podemos decidir o que fazer com o futuro que já começou.

Vamos juntos pensar em como transformar a longevidade em mais anos de vida com qualidade e sentido.

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Se você tem mais de 30 anos, provavelmente lembra de “De Volta para o Futuro”. Aquele filme em que o futuro parecia quase uma ficção divertida, cheia de previsões improváveis.

Mas, no caso do envelhecimento da população, o futuro nunca teve nada de improvável.

Eu entrei na faculdade de medicina em 1994. Naquela época, já se falava, e muito, sobre o envelhecimento da população. Não era uma hipótese distante. Era um caminho claro, sustentado por dados consistentes. A gente sabia.

Sabia que viveríamos mais. Sabia que teríamos muito mais idosos no país e no mundo. Sabia que isso mudaria tudo: o sistema de saúde, a economia, as relações de trabalho, a própria organização da sociedade.

Naqueles anos, o filme De Volta para o Futuro ainda era uma referência de como imaginávamos o amanhã. Hoje, olhando em volta, a sensação é outra.

O futuro chegou. Mas, em muitos aspectos, parece que voltamos para o passado, como se tivéssemos assistido a tudo isso acontecer sem realmente nos preparar.

Se sabíamos o que estava por vir, por que chegamos até aqui tão pouco preparados?

A medicina fez a sua parte. Avançamos, ampliamos diagnósticos, desenvolvemos tratamentos, controlamos doenças que antes limitavam a vida. Hoje, viver mais deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Mas viver mais não é, necessariamente, viver melhor. E, principalmente, não é viver melhor para todos.

O acesso ao cuidado ainda é profundamente desigual. O envelhecimento bem-sucedido, que tanto estudamos e defendemos, ainda é privilégio de poucos. Para muitos brasileiros, envelhecer continua sendo sinônimo de perda de autonomia, de dificuldade de acesso, de fragilidade social.

E mesmo dentro do sistema de saúde, ainda tratamos o envelhecimento como um tema à parte. Como se fosse responsabilidade de alguns poucos especialistas. Não é.

A realidade é mais simples e mais desafiadora. Todos nós lidamos, e vamos lidar cada vez mais com pessoas idosas. Em qualquer consultório, em qualquer serviço, em qualquer nível de atenção.

Ainda assim, a formação dos nossos profissionais de saúde pouco acompanha essa mudança. Seguimos treinando médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e tantos outros profissionais sem os preparar, de forma consistente, para o cuidado do idoso.

E vale lembrar que não teremos geriatras e gerontólogos em número suficiente para dar conta dessa demanda.

Assim, talvez esteja na hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir quantos especialistas precisamos formar, deveríamos nos perguntar porque ainda não incorporamos o envelhecimento como competência básica para todos os profissionais de saúde. Se o futuro já chegou, não faz mais sentido tratar o cuidado do idoso como exceção. Ele precisa ser a regra. Mas talvez a maior falha tenha sido outra.

Ao longo dos anos, tratamos o envelhecimento como um tema da saúde. Como se fosse um assunto restrito a consultórios, hospitais e políticas assistenciais. Não é.

Envelhecer é uma experiência que atravessa toda a sociedade. Está nas cidades que não foram preparadas, nas calçadas que oferecem risco, nos transportes que não acolhem, nos ambientes de trabalho que excluem, nos serviços que não consideram as limitações e, principalmente, nas potencialidades de quem envelhece.

Está nas empresas que ainda não entenderam que a população idosa já é uma das maiores forças de consumo do país; nas relações de trabalho que não se adaptaram à geração que cuida, ao mesmo tempo, de filhos e de pais.

Está no silêncio. Falamos pouco sobre envelhecimento. Planejamos pouco. Discutimos menos ainda. Como se não fosse acontecer. Mas, já aconteceu.

E, talvez por isso, seguimos tratando o aumento da longevidade como uma conquista isolada, quando, na verdade, ele exige uma reorganização profunda de praticamente tudo.

Se viver mais é uma realidade, viver melhor precisa deixar de ser uma exceção. E isso não será resolvido apenas dentro do sistema de saúde. Assim como precisamos “geriatrizar” o cuidado, talvez seja hora de ampliar esse conceito.

Precisamos, de alguma forma, “geriatrizar” a sociedade.

Do atendimento no banco ao embarque em um aeroporto. Do desenvolvimento de tecnologias à forma como desenhamos nossas cidades. Das políticas públicas às relações dentro de casa.

Envelhecer não pode ser um problema a ser gerido. Precisa ser uma realidade a ser incorporada.

E talvez a boa notícia seja justamente essa. Ainda dá tempo! Sempre dá tempo.

Diferente de outros desafios que surgem de forma inesperada, o envelhecimento da população continua sendo um processo previsível. Nós sabemos o que vem pela frente. Sabemos onde falhamos. E, principalmente, sabemos por onde começar.

Temos mais informação, mais tecnologia e mais conhecimento acumulado do que nunca.

A tecnologia, aliás, tem desempenhado um papel cada vez mais relevante nesse cenário. Avanços em monitoramento, diagnósticos, terapias e ferramentas digitais ampliam possibilidades de cuidado, autonomia e qualidade de vida. E, ao contrário do que ainda se imagina, muitos idosos acompanham essas mudanças e as incorporam no seu dia a dia com naturalidade, utilizam aplicativos, se comunicam, consomem informação e participam ativamente desse novo ambiente digital.

E vale ir além: a própria inovação já não é mais um território exclusivamente jovem. Uma parcela crescente das empresas de tecnologia vem sendo criada e liderada por pessoas com mais de 60 anos, um movimento que ainda recebe pouca atenção, mas que diz muito sobre o que está por vir.

Há exemplos no mundo de cidades mais adaptadas, de modelos de cuidado mais integrados, de iniciativas que valorizam a autonomia e a participação ativa das pessoas idosas.

Temos, inclusive, uma nova geração que começa a envelhecer com outras expectativas, mais informada, mais ativa e menos disposta a aceitar os padrões antigos.

Talvez o que falte não seja capacidade, mas decisão.

Decisão de incorporar o envelhecimento como parte central do planejamento das políticas públicas às estratégias das empresas, da formação dos profissionais às escolhas individuais.

Porque, no fim, não estamos falando de um grupo específico.

Estamos falando de todos nós.

Se antes olhávamos para o envelhecimento como um futuro distante, hoje ele já faz parte do presente. E, justamente por isso, ainda pode ser transformado.

Talvez essa seja, no fundo, uma das conversas mais importantes do nosso tempo.

Por acompanhar esse tema há décadas, vi previsões se confirmarem, vi avanços importantes acontecerem e também vi oportunidades sendo adiadas.

Mas continuo acreditando que ainda estamos a tempo.

Se, por um lado, não podemos voltar ao passado para fazer diferente, como no filme que marcou uma geração, por outro ainda podemos decidir o que fazer com o futuro que já começou.

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