

Para nós, que estamos habituados a ler artigos científicos, ou para algumas criaturas abençoadas pela musa da pesquisa e é bom deixar claro desde o início que não figuro entre esse panteão - escrevê-los, desenvolver uma coluna na área da saúde é um desafio. Um desafio significativamente interessante. Acredito que para manter a qualidade de uma coluna seja necessário exercitar o rigor científico, afinal, para desinformação, ou pseudo-informação há conteúdo de sobra.
Basta uma pesquisa no Google para ser inundado por notícias e mais notícias revolucionárias com 10 dicas para melhorar sua imunidade que seu médico não quer que você saiba, a cura para câncer com algum simples segredo, e toda sorte de absurdos baseados em nada além de sonhos.
Ninguém viria à Valor e Saúde procurar conteúdo... bem... (com o perdão pela brincadeira) sem valor.
Ao mesmo tempo, escrever em uma coluna permite que nos prestemos a discussões coloquiais, diálogos, e até brincadeiras às vezes, coisa que um artigo científico de qualidade não se permite.
Isso abre um leque de possibilidades que talvez interesse o leitor que, com frequência bombardeado de conteúdo em todos os meios, vem nos procurar para uma pausa.
A mesma que me proponho enquanto escrevo, diminuir o ritmo, focar a atenção e assim fazê-lo de uma maneira leve.
Nunca escrevi como colunista, mas do muito que li e do pouco que sei gostaria que a experiência fosse agradável para os leitores. Acumulei um tanto de bagagem e histórias ao longo da minha trajetória. Professores, pacientes e amigos farão parte dos textos, e agora, empossado da coluna, posso convidar mais pessoas para contribuir. Sobretudo essa coluna será um espaço de troca, então conversas, anedotas, músicas e mensagens (de qualquer natureza) são bem vindas. Sintam-se convidados para participar das conversas.
Posta essa breve introdução, discutir Medicina do Estilo de Vida (MEV) será o tema de nosso diálogo, caro leitor.
Durante a revisão, me sugeriram acrescentar que aqui que “vamos falar de medicina bem feita, relações humanas e a arte do cuidar. Iremos além. E que, de alguma forma, isso vale para todos que tocam pessoas no seu dia a dia, não apenas os profissionais de saúde”.
Não poderia ter descrito melhor a proposta. Vamos aprofundar os pilares da MEV, as discussões, os artigos que venho lendo, e alguns posicionamentos para agregar conhecimento técnico suficiente para discussões com especialistas, tal qual para aquela conversa agradável em jantares de família no qual algum desavisado sempre traz exemplos anedóticos de pessoas que cultivaram hábitos pouco recomendáveis e que viveram vidas longas e prósperas.
Simon Sinek, prolífico autor e produtor de conteúdo, possui um livro bastante famoso: “Comece pelo Porquê”. Certamente vou citá-lo em outros textos, muito menos pela profundidade do conteúdo (que é vasta na discussão de propósito e atuação de empresas), mas por conta da estrutura que ele propõe: partiremos dO QUE as empresas fazem, passando pelo COMO fazem, até chegar ao PORQUE de sua própria existência.
Segundo a teoria do Círculo Dourado, todas as empresas sabem O QUE fazem. Nós, profissionais de saúde, vendemos nosso tempo realizando atendimentos, sejam eles hospitalares, ambulatoriais ou domiciliares, e que podem ser realizados para um hospital, para uma empresa, de maneira autônoma, por telemedicina e quaisquer outras sugestões que vocês nos derem para incluir aqui.
Mas resumindo nosso O QUE, fazemos atendimentos de pessoas, em vários contextos. As empresas mais desenvolvidas sabem COMO fazer. Profissionais de saúde escolhem especializações para aprender COMO FAZER o cuidado de seus pacientes, por exemplo.
Um geriatra, como este que vos fala, tem uma estrutura de consulta bastante diferente de um pneumologista. As perguntas são diferentes, o foco da conversa, diagnósticos, tempo de consulta e por aí vai. A especialização de um ortopedista e de um ginecologista tem temas diferentes, e consequentemente as consultas serão realizadas de maneira diversa, o COMO abordar pacientes com queixas relativas a sistemas diferentes é necessariamente.
Mesmo especialistas e subespecialistas podem ter um COMO diferente, a abordagem de comunicação, a estrutura do consultório, testes realizados, equipamentos disponíveis para procedimentos. São várias combinações possíveis de conceitos que certamente contribuem para a experiência do cuidado daquele indivíduo.
A maioria dos currículos médicos foca nesses dois pontos, “o que” e “como”. A Medicina Convencional foca nos fatores de risco e determinantes proximais de uma doença, posicionando o paciente como passivo, apenas como receptor do cuidado sem que sejam necessárias tomadas de decisão para levar a mudanças.
Nosso foco é essencialmente o diagnóstico e prescrição, com expectativas de resultados em curto prazo.
Reduzimos a percepção de mundo dos estudantes, pessoas tornam-se doentes, doentes viram diagnósticos, diagnósticos exigem prescrições medicamentosas e exames. Ouvi dizer que isso seria o suficiente para uma coluna inteira.
Essa construção de visão de mundo gerou outra grande dificuldade na área da saúde: fala-se de “clientes”, na tentativa de retirar a pessoa da posição passiva do “paciente”, e de repente o expectativa transitou do cuidado, para uma expectativa de prescrições e exames, infinitos e muitas vezes desnecessários. Soluções rápidas, infalíveis e capazes de solucionar todos problemas com uma única pílula.
Os próprios profissionais de saúde passaram a agir como se seu único papel fosse a prescrição, tratar doenças e atender o próximo paciente como numa linha de produção.
Na visão de Simon Sinek, não é “o que” ou “como” que faz as pessoas escolherem uma marca, ou escolherem um profissional. Muito além dos sites, do currículo dos profissionais, e do número de seguidores no Instagram, as pessoas fazem escolhas que se relacionam com a motivação da empresa, ou profissional. O PORQUÊ delas.
Esse PORQUÊ, esse propósito declarado das empresas, é a chave para compreender a motivação para as filas descomunais que assistíamos, incrédulos, sempre que era lançado um novo Iphone. As pessoas queriam ser reconhecidas como inovadoras, insatisfeitas e como quem estava ali para quebrar paradigmas. Se tornar alguém associado ao uso da Apple era um símbolo de status como esse perfil descrito acima, era poder estar na vanguarda e direcionar a mudança.
O principal motivo de decidir fazer uma coluna dedicada a MEV se relaciona exatamente com esse PORQUÊ. Existem protocolos suficientes, as inteligências artificiais claramente conseguem estruturar um passo-a-passo de uma linha de cuidado. Acreditem, eu construí e sigo construindo protocolos numa rotina quase diária, hoje em dia com apoio da IA. Para apoiar pessoas em mudança de estilo de vida não basta o saber técnico, é preciso se encantar, com curiosidade sincera, pela pessoa que nos oferece a honra e privilégio de conhecer sua jornada até alí. Ainda que sejam possíveis protocolos de atendimento em MEV (e há muitas pessoas propondo isso como produto), há uma perda dessa curiosidade.
Se o protocolo está posto, baseado na nossa experiência, nas evidências, ou no quer mais que tenhamos colocado como foco do cuidado, resta seguir friamente os mapas.
Se a estrada precisa ser descoberta, faz sentido acolher falhas e ajustes que só farão sentido conforme aprendemos sobre aquilo que realmente importa.
As evidências servem de guias, nunca como ameaças, e permitem exercitar aquilo que tanto se fala sobre colocar o paciente no centro do cuidado. E é nesse porquê que encontraremos o paciente, agora como indivíduo e igual a nós.
Adoro como esse raciocínio do porquê é cíclico: começamos falando sobre o porquê dessa coluna e porquê de falar de MEV. Falaremos sobre encontrar o porquê do paciente, e em algum texto gostaria muito conversar sobre o nosso próprio porquê como profissionais de saúde.
Até lá, vamos incluir discussões técnicas e baseadas em evidências, conversas sobre comunicação, e sobre como entender os passos desse cuidado.
Teremos tempo.
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Seu processo de recertificação nunca mais será o mesmo. Além disso, a satisfação dos colaboradores e o impacto nas rotinas de trabalho gerarão benefícios administrativos e assistenciais.
Sua equipe evolui. Sua gestão acompanha. Seu hospital adquire uma cultura de aprendizagem em jornadas contínuas. Seus resultados aparecem.
SAIBA MAIS
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Basta uma pesquisa no Google para ser inundado por notícias e mais notícias revolucionárias com 10 dicas para melhorar sua imunidade que seu médico não quer que você saiba, a cura para câncer com algum simples segredo, e toda sorte de absurdos baseados em nada além de sonhos.
Ninguém viria à Valor e Saúde procurar conteúdo... bem... (com o perdão pela brincadeira) sem valor.
Ao mesmo tempo, escrever em uma coluna permite que nos prestemos a discussões coloquiais, diálogos, e até brincadeiras às vezes, coisa que um artigo científico de qualidade não se permite.
Isso abre um leque de possibilidades que talvez interesse o leitor que, com frequência bombardeado de conteúdo em todos os meios, vem nos procurar para uma pausa.
A mesma que me proponho enquanto escrevo, diminuir o ritmo, focar a atenção e assim fazê-lo de uma maneira leve.
Nunca escrevi como colunista, mas do muito que li e do pouco que sei gostaria que a experiência fosse agradável para os leitores. Acumulei um tanto de bagagem e histórias ao longo da minha trajetória. Professores, pacientes e amigos farão parte dos textos, e agora, empossado da coluna, posso convidar mais pessoas para contribuir. Sobretudo essa coluna será um espaço de troca, então conversas, anedotas, músicas e mensagens (de qualquer natureza) são bem vindas. Sintam-se convidados para participar das conversas.
Posta essa breve introdução, discutir Medicina do Estilo de Vida (MEV) será o tema de nosso diálogo, caro leitor.
Durante a revisão, me sugeriram acrescentar que aqui que “vamos falar de medicina bem feita, relações humanas e a arte do cuidar. Iremos além. E que, de alguma forma, isso vale para todos que tocam pessoas no seu dia a dia, não apenas os profissionais de saúde”.
Não poderia ter descrito melhor a proposta. Vamos aprofundar os pilares da MEV, as discussões, os artigos que venho lendo, e alguns posicionamentos para agregar conhecimento técnico suficiente para discussões com especialistas, tal qual para aquela conversa agradável em jantares de família no qual algum desavisado sempre traz exemplos anedóticos de pessoas que cultivaram hábitos pouco recomendáveis e que viveram vidas longas e prósperas.
Simon Sinek, prolífico autor e produtor de conteúdo, possui um livro bastante famoso: “Comece pelo Porquê”. Certamente vou citá-lo em outros textos, muito menos pela profundidade do conteúdo (que é vasta na discussão de propósito e atuação de empresas), mas por conta da estrutura que ele propõe: partiremos dO QUE as empresas fazem, passando pelo COMO fazem, até chegar ao PORQUE de sua própria existência.
Segundo a teoria do Círculo Dourado, todas as empresas sabem O QUE fazem. Nós, profissionais de saúde, vendemos nosso tempo realizando atendimentos, sejam eles hospitalares, ambulatoriais ou domiciliares, e que podem ser realizados para um hospital, para uma empresa, de maneira autônoma, por telemedicina e quaisquer outras sugestões que vocês nos derem para incluir aqui.
Mas resumindo nosso O QUE, fazemos atendimentos de pessoas, em vários contextos. As empresas mais desenvolvidas sabem COMO fazer. Profissionais de saúde escolhem especializações para aprender COMO FAZER o cuidado de seus pacientes, por exemplo.
Um geriatra, como este que vos fala, tem uma estrutura de consulta bastante diferente de um pneumologista. As perguntas são diferentes, o foco da conversa, diagnósticos, tempo de consulta e por aí vai. A especialização de um ortopedista e de um ginecologista tem temas diferentes, e consequentemente as consultas serão realizadas de maneira diversa, o COMO abordar pacientes com queixas relativas a sistemas diferentes é necessariamente.
Mesmo especialistas e subespecialistas podem ter um COMO diferente, a abordagem de comunicação, a estrutura do consultório, testes realizados, equipamentos disponíveis para procedimentos. São várias combinações possíveis de conceitos que certamente contribuem para a experiência do cuidado daquele indivíduo.
A maioria dos currículos médicos foca nesses dois pontos, “o que” e “como”. A Medicina Convencional foca nos fatores de risco e determinantes proximais de uma doença, posicionando o paciente como passivo, apenas como receptor do cuidado sem que sejam necessárias tomadas de decisão para levar a mudanças.
Nosso foco é essencialmente o diagnóstico e prescrição, com expectativas de resultados em curto prazo.
Reduzimos a percepção de mundo dos estudantes, pessoas tornam-se doentes, doentes viram diagnósticos, diagnósticos exigem prescrições medicamentosas e exames. Ouvi dizer que isso seria o suficiente para uma coluna inteira.
Essa construção de visão de mundo gerou outra grande dificuldade na área da saúde: fala-se de “clientes”, na tentativa de retirar a pessoa da posição passiva do “paciente”, e de repente o expectativa transitou do cuidado, para uma expectativa de prescrições e exames, infinitos e muitas vezes desnecessários. Soluções rápidas, infalíveis e capazes de solucionar todos problemas com uma única pílula.
Os próprios profissionais de saúde passaram a agir como se seu único papel fosse a prescrição, tratar doenças e atender o próximo paciente como numa linha de produção.
Na visão de Simon Sinek, não é “o que” ou “como” que faz as pessoas escolherem uma marca, ou escolherem um profissional. Muito além dos sites, do currículo dos profissionais, e do número de seguidores no Instagram, as pessoas fazem escolhas que se relacionam com a motivação da empresa, ou profissional. O PORQUÊ delas.
Esse PORQUÊ, esse propósito declarado das empresas, é a chave para compreender a motivação para as filas descomunais que assistíamos, incrédulos, sempre que era lançado um novo Iphone. As pessoas queriam ser reconhecidas como inovadoras, insatisfeitas e como quem estava ali para quebrar paradigmas. Se tornar alguém associado ao uso da Apple era um símbolo de status como esse perfil descrito acima, era poder estar na vanguarda e direcionar a mudança.
O principal motivo de decidir fazer uma coluna dedicada a MEV se relaciona exatamente com esse PORQUÊ. Existem protocolos suficientes, as inteligências artificiais claramente conseguem estruturar um passo-a-passo de uma linha de cuidado. Acreditem, eu construí e sigo construindo protocolos numa rotina quase diária, hoje em dia com apoio da IA. Para apoiar pessoas em mudança de estilo de vida não basta o saber técnico, é preciso se encantar, com curiosidade sincera, pela pessoa que nos oferece a honra e privilégio de conhecer sua jornada até alí. Ainda que sejam possíveis protocolos de atendimento em MEV (e há muitas pessoas propondo isso como produto), há uma perda dessa curiosidade.
Se o protocolo está posto, baseado na nossa experiência, nas evidências, ou no quer mais que tenhamos colocado como foco do cuidado, resta seguir friamente os mapas.
Se a estrada precisa ser descoberta, faz sentido acolher falhas e ajustes que só farão sentido conforme aprendemos sobre aquilo que realmente importa.
As evidências servem de guias, nunca como ameaças, e permitem exercitar aquilo que tanto se fala sobre colocar o paciente no centro do cuidado. E é nesse porquê que encontraremos o paciente, agora como indivíduo e igual a nós.
Adoro como esse raciocínio do porquê é cíclico: começamos falando sobre o porquê dessa coluna e porquê de falar de MEV. Falaremos sobre encontrar o porquê do paciente, e em algum texto gostaria muito conversar sobre o nosso próprio porquê como profissionais de saúde.
Até lá, vamos incluir discussões técnicas e baseadas em evidências, conversas sobre comunicação, e sobre como entender os passos desse cuidado.
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Sua equipe evolui. Sua gestão acompanha. Seu hospital adquire uma cultura de aprendizagem em jornadas contínuas. Seus resultados aparecem.
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Para nós, que estamos habituados a ler artigos científicos, ou para algumas criaturas abençoadas pela musa da pesquisa e é bom deixar claro desde o início que não figuro entre esse panteão - escrevê-los, desenvolver uma coluna na área da saúde é um desafio. Um desafio significativamente interessante. Acredito que para manter a qualidade de uma coluna seja necessário exercitar o rigor científico, afinal, para desinformação, ou pseudo-informação há conteúdo de sobra.
Basta uma pesquisa no Google para ser inundado por notícias e mais notícias revolucionárias com 10 dicas para melhorar sua imunidade que seu médico não quer que você saiba, a cura para câncer com algum simples segredo, e toda sorte de absurdos baseados em nada além de sonhos.
Ninguém viria à Valor e Saúde procurar conteúdo... bem... (com o perdão pela brincadeira) sem valor.
Ao mesmo tempo, escrever em uma coluna permite que nos prestemos a discussões coloquiais, diálogos, e até brincadeiras às vezes, coisa que um artigo científico de qualidade não se permite.
Isso abre um leque de possibilidades que talvez interesse o leitor que, com frequência bombardeado de conteúdo em todos os meios, vem nos procurar para uma pausa.
A mesma que me proponho enquanto escrevo, diminuir o ritmo, focar a atenção e assim fazê-lo de uma maneira leve.
Nunca escrevi como colunista, mas do muito que li e do pouco que sei gostaria que a experiência fosse agradável para os leitores. Acumulei um tanto de bagagem e histórias ao longo da minha trajetória. Professores, pacientes e amigos farão parte dos textos, e agora, empossado da coluna, posso convidar mais pessoas para contribuir. Sobretudo essa coluna será um espaço de troca, então conversas, anedotas, músicas e mensagens (de qualquer natureza) são bem vindas. Sintam-se convidados para participar das conversas.
Posta essa breve introdução, discutir Medicina do Estilo de Vida (MEV) será o tema de nosso diálogo, caro leitor.
Durante a revisão, me sugeriram acrescentar que aqui que “vamos falar de medicina bem feita, relações humanas e a arte do cuidar. Iremos além. E que, de alguma forma, isso vale para todos que tocam pessoas no seu dia a dia, não apenas os profissionais de saúde”.
Não poderia ter descrito melhor a proposta. Vamos aprofundar os pilares da MEV, as discussões, os artigos que venho lendo, e alguns posicionamentos para agregar conhecimento técnico suficiente para discussões com especialistas, tal qual para aquela conversa agradável em jantares de família no qual algum desavisado sempre traz exemplos anedóticos de pessoas que cultivaram hábitos pouco recomendáveis e que viveram vidas longas e prósperas.
Simon Sinek, prolífico autor e produtor de conteúdo, possui um livro bastante famoso: “Comece pelo Porquê”. Certamente vou citá-lo em outros textos, muito menos pela profundidade do conteúdo (que é vasta na discussão de propósito e atuação de empresas), mas por conta da estrutura que ele propõe: partiremos dO QUE as empresas fazem, passando pelo COMO fazem, até chegar ao PORQUE de sua própria existência.
Segundo a teoria do Círculo Dourado, todas as empresas sabem O QUE fazem. Nós, profissionais de saúde, vendemos nosso tempo realizando atendimentos, sejam eles hospitalares, ambulatoriais ou domiciliares, e que podem ser realizados para um hospital, para uma empresa, de maneira autônoma, por telemedicina e quaisquer outras sugestões que vocês nos derem para incluir aqui.
Mas resumindo nosso O QUE, fazemos atendimentos de pessoas, em vários contextos. As empresas mais desenvolvidas sabem COMO fazer. Profissionais de saúde escolhem especializações para aprender COMO FAZER o cuidado de seus pacientes, por exemplo.
Um geriatra, como este que vos fala, tem uma estrutura de consulta bastante diferente de um pneumologista. As perguntas são diferentes, o foco da conversa, diagnósticos, tempo de consulta e por aí vai. A especialização de um ortopedista e de um ginecologista tem temas diferentes, e consequentemente as consultas serão realizadas de maneira diversa, o COMO abordar pacientes com queixas relativas a sistemas diferentes é necessariamente.
Mesmo especialistas e subespecialistas podem ter um COMO diferente, a abordagem de comunicação, a estrutura do consultório, testes realizados, equipamentos disponíveis para procedimentos. São várias combinações possíveis de conceitos que certamente contribuem para a experiência do cuidado daquele indivíduo.
A maioria dos currículos médicos foca nesses dois pontos, “o que” e “como”. A Medicina Convencional foca nos fatores de risco e determinantes proximais de uma doença, posicionando o paciente como passivo, apenas como receptor do cuidado sem que sejam necessárias tomadas de decisão para levar a mudanças.
Nosso foco é essencialmente o diagnóstico e prescrição, com expectativas de resultados em curto prazo.
Reduzimos a percepção de mundo dos estudantes, pessoas tornam-se doentes, doentes viram diagnósticos, diagnósticos exigem prescrições medicamentosas e exames. Ouvi dizer que isso seria o suficiente para uma coluna inteira.
Essa construção de visão de mundo gerou outra grande dificuldade na área da saúde: fala-se de “clientes”, na tentativa de retirar a pessoa da posição passiva do “paciente”, e de repente o expectativa transitou do cuidado, para uma expectativa de prescrições e exames, infinitos e muitas vezes desnecessários. Soluções rápidas, infalíveis e capazes de solucionar todos problemas com uma única pílula.
Os próprios profissionais de saúde passaram a agir como se seu único papel fosse a prescrição, tratar doenças e atender o próximo paciente como numa linha de produção.
Na visão de Simon Sinek, não é “o que” ou “como” que faz as pessoas escolherem uma marca, ou escolherem um profissional. Muito além dos sites, do currículo dos profissionais, e do número de seguidores no Instagram, as pessoas fazem escolhas que se relacionam com a motivação da empresa, ou profissional. O PORQUÊ delas.
Esse PORQUÊ, esse propósito declarado das empresas, é a chave para compreender a motivação para as filas descomunais que assistíamos, incrédulos, sempre que era lançado um novo Iphone. As pessoas queriam ser reconhecidas como inovadoras, insatisfeitas e como quem estava ali para quebrar paradigmas. Se tornar alguém associado ao uso da Apple era um símbolo de status como esse perfil descrito acima, era poder estar na vanguarda e direcionar a mudança.
O principal motivo de decidir fazer uma coluna dedicada a MEV se relaciona exatamente com esse PORQUÊ. Existem protocolos suficientes, as inteligências artificiais claramente conseguem estruturar um passo-a-passo de uma linha de cuidado. Acreditem, eu construí e sigo construindo protocolos numa rotina quase diária, hoje em dia com apoio da IA. Para apoiar pessoas em mudança de estilo de vida não basta o saber técnico, é preciso se encantar, com curiosidade sincera, pela pessoa que nos oferece a honra e privilégio de conhecer sua jornada até alí. Ainda que sejam possíveis protocolos de atendimento em MEV (e há muitas pessoas propondo isso como produto), há uma perda dessa curiosidade.
Se o protocolo está posto, baseado na nossa experiência, nas evidências, ou no quer mais que tenhamos colocado como foco do cuidado, resta seguir friamente os mapas.
Se a estrada precisa ser descoberta, faz sentido acolher falhas e ajustes que só farão sentido conforme aprendemos sobre aquilo que realmente importa.
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